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domingo, 25 de setembro de 2011

PARA ONDE FORAM AS ABELHAS?


PARA ONDE FORAM AS ABELHAS?

13/01/2011 18:29:17

Para onde foram as abelhas?

Wayne Ellwood, da NewInternationalist, procura por pistas. Tradução Leticia Freire, do Mercado Ético *
Se John Muir ainda estivesse vivo, seguramente não reconheceria o vale central da Califórnia. Quando o intrépido naturalista escocês-americano e fundador do Sierra Club percorria a pé a região na década de 1860 e 1870, tudo que se via era a surpreendente riqueza e diversidade das plantas e flores, que cobriam o fundo do vale e subiam pelas encostas da montanha. Certa vez, em prosa, ele descreveu a localidade de “pastagens de abelha”: “A Califórnia é como um doce jardim de abelhas por toda sua extensão, de norte a sul, e por todos seus caminhos, da serra nevada ao mar… A grande planície central, durante os meses de março, abril e maio, é um cama, suave e contínua de flor-de-mel, tão maravilhosamente rica que, ao andar de uma extremidade à outra, em uma distância de mais de 400 milhas, seu pé vai pressionar cerca de uma centena de flores a cada passo. Elas são radiantes, tocadas e sobrepostas, elevam-se uma acima da outra e brilham na luz viva, como um céu de um pôr do sol …”(The Mountains of California by John Muir, disponível em www.sierraclub.org )
Um século e meio depois, a cena é muito diferente. Doze faixas rodoviárias cortam o vale já cercado pela expansão urbana. Casas em fileiras escalam as encostas. Nas áreas não dominadas pelos shoppings e parques industriais, milhares de hectares de tomate, pimentão, feijão, morango e alface são cultivados pelos trabalhadores mexicanos. Os campos agora estão irrigados com pesticidas, herbicidas e fungicidas.
No clima único do vale de San Joaquin e Sacramento, frutas e legumes dão lugar a uma outra cultura – as amêndoas. As pastagens de abelhas de John Muir foram extirpadas e substituídas por 700 mil hectares de amendoeiras. Oitenta por cento da produção mundial é cultivada aqui. As exportações rendem ao estado mais de um bilhão de dólares por ano e representam, em termos gerais, o dobro do faturamento da indústria de vinho da Califórnia.
Em fevereiro, as flores brancas das amendoeiras se estendem até o horizonte. Ironicamente, elas precisam ser polinizadas para gerar os frutos. Mas a cultura é tão grande, que as abelhas silvestres ainda na ativa não conseguem dar conta do trabalho. Semanas depois das flores dos amendoeiros partirem, a área se torna um deserto. Onde não há néctar ou pólen, não há abelhas.
Para atender a tal demanda de polinização, industrializou-se o processo. As abelhas produtoras rendem aos apicultores comerciais algo em torno de U$ 150 a U$ 200 por colméia. O maciço de amêndoeiras monoflorestais exige quase dois milhões de colméias, que são transportadas de outras partes dos EUA. As abelhas são empilhadas e transportadas milhares de quilômetros por mais de 38 estados e depois descarregadas por empilhadeira e dispersas nos bosques de amêndoa. Nos dias atuais, cabe a elas apenas o “serviços de polinização”. Já não produzem mais o mel. Dos três milhões de colônias de abelhas comerciais dos EUA, mais de dois terços viajam pela nação para polinização (Robbing the bees, Holly Bishop, p.133).
É uma longa turnê de obrigação cobrindo toda a temporada de crescimento. E isso acontece em toda a América do Norte. As abelhas podem ser consideradas as trabalhadores agrícolas migrantes do mundo dos insetos. E são extremamente importantes para os produtores, principalmente para os de amêndoas – essa cultura não existiria sem elas. Esse é um bom negócio para os apicultores. Mas para as abelhas é outro assunto.
Mortes em massa
As primeiras notícias da morte em uma massa de abelhas surgiram em 2006. Dave Hackenberg é um dos maiores apicultores da Pensilvânia. A maior parte da sua renda vem das abelhas. Em outubro de 2006, um lote de suas colméias, transportadas para a Flórida para se alimentarem de blueberries, depois que já tinham trabalhado nos campos de abóboras no norte, eram cidades-fantasma. Havia sobrado poucas abelhas e a rainha, não mais. Quase todas haviam misteriosamente morrido. E o mais intrigante era que os invasores oportunistas (mariposas e besouros), que geralmente invadem uma colméia quando ela está em apuros, recusaram-se a chegar perto da zona morta. A morte em massa virou uma síndrome que foi nomeada de Colony Collapse Disorder – CCD (Transtorno da Colmeia em Colapso, em tradução livre- para ler a história completa, veja Fruitless Fall by Rowan Jacobsen, pp.57-66 ).
Não demorou muito para que outros apicultores dos EUA começassem a relatar perdas semelhantes. Na primavera de 2007 ficou claro que a CCD era generalizada. Um quarto de todos os apicultores estadunidenses sofreram perdas de mais de 30% de todas suas colônias de abelhas. Relatórios de enorme mortandade também vieram da Austrália, Canadá, Brasil, China, Europa e outras regiões. Na Inglaterra, em 2008, as perdas cresceram em média 30% em relação à 2007.
Frágeis abelhas
Não é incomum que as abelhas morram em grande número. Em tempo frio, ácaros, bactérias, vírus, parasitas, envenenamento por pesticidas e infecções fúngicas são causas comuns das suas mortes. Apicultores, muitas vezes, perdem 10% das suas abelhas durante o inverno. Bom, você pode estar se perguntando: então, qual é o problema? Ainda existem muitas abelhas, os apicultores podem reconstruir suas colméias – e talvez não seja uma má idéia se algum desses pomares de amendoeiras forem convertidos em pasto. Infelizmente, não é tão simples assim. A Apis mellifera, também conhecida como Abelha Europeia, é essencial para a chamada agricultura industrial moderna na Europa, Américas, Ásia, Austrália e Nova Zelândia/Aotearoa.
As abelhas se alimentam de qualquer coisa que está florescendo. Segundo aInternational Bee Research Association, um terço da nossa dieta vem a partir de culturas de floração e as abelhas são responsáveis pela polinização de cerca de 80% delas. Elas são essenciais na produção de pelo menos 90 alimentos cultivados comercialmente. Maçãs, pêras, damascos, melões, brócolis, alho, cebola, pimenta, tomate e café – todos eles dependem de abelhas para a polinização. Não há preço para o “serviço de polinização”. É como tentar colocar um preço no ar puro e na água limpa.
Os polinizadores são mais importantes do que isso. Eles também dão vastidão à plantas como alfafa e trevo, que são usadas para alimentar os animais que produzem leite, carne e queijo. Não importa se você é vegetariano ou carnívoro. As abelhas colocam comida na mesa. Um relatório do National Research Council, em Washington, confirmou isso: “o declínio dos polinizadores pode alterar a forma de vida no mundo” (‘The Status of Pollinators in North America’, National Research Council, Washington,www.nap.edu ).
Os polinizadores, especialmente as abelhas, são o que a ecologista Rachel Carson chama de espécies-chave. Elas estão no centro de toda a cadeia alimentar. “Remova a chave e verá o colapso do sistema”, reforçou.
Para piorar, há evidências de que as abelhas chamadas nativas e outros polinizadores como mariposas, borboletas, morcegos e beija-flores também estão em declínio. Na Grã-Bretanha, mais da metade das abelhas nativas foram extintas ou enfrentarão a extinção em poucas décadas. Em algumas partes da Holanda, a diversidade de abelhas diminuiu 80% nos últimos 25 anos. No Canadá, a pesquisadora Sheila Colla descobriu que três espécies de abelhas que eram comuns no sul de Ontário e no nordeste dos EUA desapareceram em 1970. A Sociedade Xerces para Conservação de Invertebrados, baseada no Oregon (EUA), colocou quatro abelhas, incluindo 2 tipos de zangões, na lista de insetos em extinção.
Dr. Laurence Packer, especialista mundial em abelhas selvagens na universidade de York, em Toronto, acredita que as estufas dos EUA são a principal culpada das doenças e mortes generalizadas de abelhas. Os zangões, utilizados para a polinização de culturas de estufa, como tomates e pimentas, estão infectados com Ceranae nosema, um protozoário unicelular originário do sudeste da Ásia que destrói o trato digestivo das abelhas.
A tragédia nas estufas começou na década de 1980, quando os produtores de abelhas americanos foram enviados à Europa para aperfeiçoar as técnicas de reprodução. As abelhas retornaram infectadas e em pouco tempo a doença se espalhou para abelhas silvestres. A globalização do setor de apicultura tem contribuído para que ácaros, bactérias, fungos, parasitas e toda uma série de vírus mortal se espalhe pelo mundo. Mas não há consenso entre os cientistas que a perda de habitat, a intensificação da agricultura e do uso rotineiro de produtos agroquímicos estejam extinguindo as populações de abelhas e abrindo a porta para as doenças.
Dieta pobre e tóxica
As abelhas precisam de uma dieta variada para prosperar. Nenhuma fonte de pólen individual contém as vitaminas, proteínas, sais minerais e gorduras necessárias para uma boa nutrição e é exatamente isso que elas não estão recebendo hoje com a maciça monocultura.
Muitos cultivos – como amoras e girassóis – têm pólens de baixa proteína. Nos campos de arado, as flores silvestres ficaram conhecidas como “ervas daninhas” e foram “amansadas” com herbicidas. Para piorar o cenário, pradarias e zonas húmidas foram pavimentadas e drenadas.
Na Inglaterra, por exemplo, ricos campos de flores caíram 97% nos últimos 60 anos. Esta perda de diversidade ecológica tem um efeito devastador no mundo dos insetos. Quando as abelhas não podem obter os nutrientes de que necessitam, ficam desnutridas, enfraquecidas e mais propensas a doenças.
Os pesticidas são outro perigo, especialmente um novo grupo chamado neonicotinóides– uma forma sintética de nicotina que é absorvida pelas folhas da planta, caules e raízes. Os insetos são os que mais provam dos sabores mortais dessa inovação agorindustrial. Imidacloprid, o maior vendedor do ‘neonics’ é aprovado para uso em 140 lavouras em mais de 100 países, uma pechincha para a gigante química alemã, Bayer (Fruitless Fall, pp.84-99).
Estes produtos químicos, teoricamente, não são considerados letais no pólen ou néctar. Mas em 1999, na França, pouco depois que a química foi introduzida em um campo de girassóis, e as abelhas começaram a morrer em massa, o país proibiu sua utilização. Ironicamente, logo após a proibição, as populações de abelhas gradualmente começaram a aumentar. Desde então o neonics foi retirado do mercado na Alemanha, Itália e Eslovénia.
Em outros lugares do mundo os pesticidas ainda são usados em larga escala. Até agora, duas coisas são claras: 1. níveis elevados de neonics podem prejudicar o sistema nervoso das abelhas, causando desorientação e, eventualmente, a morte; 2. os produtos químicos foram encontrados em quantidades sub-letais no pólen – fonte principal de proteína para as abelhas.
Mas, afinal,quantas doses sub-letais são necessárias para se tornar letal? Ninguém sabe. O desconhecimento desse elemento e de outras centenas de produtos agroquímicos atualmente em uso combinam para a toxidade da questão. Ou seja, as indústrias químicas não fazem testes cruzados para a interação de diferentes produtos químicos e os governos não exigem que assim o façam.
Um estudo recente em colônias atingidas pela síndrome CCD encontrou mais de 170 substâncias químicas diferentes nas abelhas das colméias afetadas (‘Solving the mystery of the vanishing bees’, Scientific American, March 31/09). Parece que as lições da clássica obra Silent Spring (Primavera silenciosa, em tradução livre), de Rachel Carson, sobre intoxicações por agrotóxicos, têm sido absorvidas de forma muito lenta.
Sem sinal de fumaça
Segundo o biólogo Peter Kevan, da Universidade de Guelph, todos esses fatores podem levar a crer que a polinização chamada não-natural causa estresse nas abelhas. “Combine tudo isso com as viagens de longa distância e você tem um problema”, diz o Dr. Kevan, membro da Comissão de Ciência de Polinizadores, da América do Norte.
“As abelhas são jogadas de um lado para o outro do país, normalmente de leste para oeste, o que significa que elas também estão recebendo choque de frio e calor em rota. O transporte é parte e parcela da apicultura comercial os EUA. E os serviços de polinização são ditados, em grande parte, pela monocultura. Uma vez que as abelhas chegam no destino, não há comida, exceto o que podem obter a partir daquela específica colheita, em três ou quatro semanas. Não é de surpreender que há um monte de pressão sobre estas abelhas”, reforça.
Muita tinta foi derramada sobre “o mistério do desaparecimento das abelhas” e uma legião de cientistas foi convocada para encontrar as causas do CCD, mas, até agora, nenhum culpado foi identificado. Não há sinal de fumaça. O paralelo mais próximo com as doenças humanas parece ser o HIV. As abelhas que sofrem de CCD estão ameaçadas por todos os tipos de doenças. É como se houvesse um colapso geral no sistema imunológico desses animais, fazendo com que invasores oportunistas atuem letalmente, exatamente como no caso do vírus da AIDS.
Agricultura moderna
Outros cientistas envolvidos estão começando a se perguntar sobre questões mais fundamentais ligadas à natureza da agricultura moderna. Será que a alta tecnologia do sistema, dependente de químicas criadas ao longo dos últimos 50 anos, primeiro no ocidente e agora globalmente, é a fonte do problema?
O fato é que a diversidade da pequena escala produtiva encontrada na agricultura familiar tem sido substituída por um modelo de agricultura industrial baseada na ideia frenética de reduzir custos e aumentar o lucro. Nosso sistema alimentar é tão dependente de fertilizantes, pesticidas, maquinário agrícola e escoamento da produção agrícola para o mercado que acabamos por nos apoiar em um cenário perigoso.
Como escreve o apicultor Vermont Ross Conrad: “Um dos princípios orientadores do modelo industrial é o desejo de maximizar os lucros da produção. Quando aplicada à agricultura, isso normalmente resulta em empurrar os organismos biológicos para dentro dos limites de sua capacidade”. (‘Natural Beekeeping’, Ross Conrad, Bee Culture, Jan 01/09. www.beeculture.com)
Agora, sem sombra de dúvidas, a humanidade pode produzir montanhas de comida barata com mínimo esforço físico. Mas esse processo exigiu a mesma “industrialização” da biodiversidade, fragilizando a vida natural (e a nós mesmos).
O escritor e ativista Chip Ward argumenta que reduzir a resiliência dos sistemas naturais é um erro: “Há pouca resiliência em um sistema artificial de produção de alimentos que se baseia na polinização de abelhas igualmente comerciais. É o culto da eficiência artificial de um mundo natural”, diz Ward. “Como é fútil, a longo prazo, impor noções estreitas de eficiência nos sistemas naturais que são profundamente dinâmicos e imprevisíveis”(‘Diesel-driven bee slums and impotent turkeys: the case for resilience’, Chip Ward, www.tomdispatch.com).
O CCD é um sinal de alerta, um sinal de que nosso sistema agrícola moderno está em profunda crise. Os cidadãos se preocupam com a perda dos grandes mamíferos: o urso polar, tigre, lobo, elefante. Mas o mundo dos insetos pode ser um melhor indicador da saúde dos nossos sistemas naturais. E não só as abelhas estão em apuros. Com elas, todos nós.

































* A reprodução do artigo “Para onde foram as abelhas?” e seus apêndices é resultado de uma parceria entre o Mercado Ético e a NewInternationalist. A reprodução não comercial é permitida desde que as fontes – autores, tradutores, ilustradores e mídias parceiras – sejam mantidas. Colabore com as boas práticas da política Creative Commons.
(Mercado Ético/NewInternationalist)

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